Economia

O Pix nosso de cada dia

Pou­cas ino­va­ções pro­du­zi­das pelo Estado bra­si­leiro alcan­ça­ram, em tão pouco tempo, o grau de acei­ta­ção popu­lar obtido pelo Pix. Cri­ado pelo Banco Cen­tral e lan­çado ofi­ci­al­mente em novem­bro de 2020, o sis­tema de paga­men­tos ins­tan­tâ­neos alte­rou hábi­tos de con­sumo, trans­for­mou rela­ções comer­ci­ais e modi­fi­cou pro­fun­da­mente a cir­cu­la­ção de recur­sos den­tro da eco­no­mia naci­o­nal. Em menos de cinco anos, tor­nou-se um dos ins­tru­men­tos finan­cei­ros mais uti­li­za­dos do pla­neta, supe­rando moda­li­da­des tra­di­ci­o­nais de trans­fe­rên­cia ban­cá­ria e redu­zindo sig­ni­fi­ca­ti­va­mente a depen­dên­cia do dinheiro em espé­cie. Muito além de uma fer­ra­menta tec­no­ló­gica, o Pix repre­senta uma mudança estru­tu­ral na forma como pes­soas, empre­sas e gover­nos movi­men­tam recur­sos. A rapi­dez das ope­ra­ções, a dis­po­ni­bi­li­dade durante 24 horas por dia e a eli­mi­na­ção de diver­sas tari­fas ban­cá­rias fize­ram com que a moda­li­dade se popu­la­ri­zasse entre todas as cama­das soci­ais.

Dados do Banco Cen­tral mos­tram que mais de 170 milhões de pes­soas e empre­sas têm cha­ves cadas­tra­das no sis­tema. O número de tran­sa­ções supera deze­nas de bilhões de ope­ra­ções anu­ais, movi­men­tando tri­lhões de reais. Em deter­mi­na­dos perí­o­dos, em quan­ti­dade de ope­ra­ções, o Pix ultra­pas­sou car­tões de débito, bole­tos ban­cá­rios, TEDS e DOCS soma­dos. O sucesso do sis­tema não ocor­reu por acaso. Durante déca­das, trans­fe­rir dinheiro no Bra­sil sig­ni­fi­cava enfren­tar tari­fas ele­va­das, horá­rios res­tri­tos e buro­cra­cias diver­sas. Ope­ra­ções sim­ples, mui­tas vezes, exi­giam des­lo­ca­men­tos físi­cos até agên­cias ban­cá­rias ou depen­diam de sis­te­mas len­tos e caros. A che­gada do Pix eli­mi­nou grande parte des­sas bar­rei­ras. Peque­nos comer­ci­an­tes tal­vez tenham sido os mai­o­res bene­fi­ci­á­rios. Antes obri­ga­dos a supor­tar cus­tos rela­ci­o­na­dos a maqui­ni­nhas de car­tão, taxas de ante­ci­pa­ção de rece­bí­veis e pra­zos para rece­bi­mento de valo­res, pas­sa­ram a con­tar com uma fer­ra­menta de liqui­da­ção ime­di­ata e custo pra­ti­ca­mente ine­xis­tente.

Em fei­ras livres, peque­nos mer­ca­dos, salões de beleza, ofi­ci­nas mecâ­ni­cas, ven­de­do­res ambu­lan­tes e milha­res de outros negó­cios espa­lha­dos pelo país, o Pix tor­nou-se a prin­ci­pal forma de paga­mento. Dinheiro que antes demo­rava dias para che­gar ao caixa pas­sou a cir­cu­lar ins­tan­ta­ne­a­mente. Essa velo­ci­dade tem refle­xos impor­tan­tes sobre a eco­no­mia. Quanto mais rápido o dinheiro cir­cula, maior tende a ser a ati­vi­dade eco­nô­mica. Trata-se de um ganho de efi­ci­ên­cia rara­mente obser­vado em sis­te­mas finan­cei­ros tra­di­ci­o­nais. Outro aspecto rele­vante é a inclu­são finan­ceira. Milhões de bra­si­lei­ros que tinham acesso limi­tado aos ser­vi­ços ban­cá­rios pas­sa­ram a par­ti­ci­par mais inten­sa­mente do ambi­ente digi­tal de paga­men­tos. O tele­fone celu­lar trans­for­mou-se numa ver­da­deira car­teira ele­trô­nica, capaz de rea­li­zar ope­ra­ções a qual­quer hora e em qual­quer lugar.

O fenô­meno cha­mou a aten­ção inter­na­ci­o­nal. Diver­sos ban­cos cen­trais e ins­ti­tui­ções finan­cei­ras pas­sa­ram a estu­dar o modelo bra­si­leiro. Paí­ses como Índia, Sin­ga­pura e outros mer­ca­dos emer­gen­tes já têm sis­te­mas seme­lhan­tes, mas o grau de ade­são alcan­çado pelo Pix colo­cou o Bra­sil entre as prin­ci­pais refe­rên­cias glo­bais em paga­men­tos ins­tan­tâ­neos. Por essa razão, parece impro­vá­vel ima­gi­nar um retro­cesso sig­ni­fi­ca­tivo nesse sis­tema. Quando uma tec­no­lo­gia alcança tama­nho grau de acei­ta­ção popu­lar, sua per­ma­nên­cia passa a depen­der muito mais da von­tade dos usu­á­rios do que das ins­ti­tui­ções que a cer­cam. O mer­cado tende a con­so­li­dar aquilo que fun­ci­ona.

Nesse con­texto, sur­gem deba­tes envol­vendo inte­res­ses eco­nô­mi­cos dis­tin­tos. O Pix redu­ziu recei­tas obti­das ante­ri­or­mente por meio de tari­fas ban­cá­rias, trans­fe­rên­cias ele­trô­ni­cas e deter­mi­na­dos ser­vi­ços finan­cei­ros tra­di­ci­o­nais. Natu­ral­mente, mudan­ças dessa mag­ni­tude alte­ram estru­tu­ras con­so­li­da­das há déca­das. Ins­ti­tui­ções finan­cei­ras tive­ram de adap­tar seus mode­los de negó­cios. Algu­mas pas­sa­ram a inves­tir em novos pro­du­tos digi­tais. Outras ampli­a­ram ser­vi­ços com­ple­men­ta­res. O mer­cado res­pon­deu com ino­va­ção. Afi­nal, tec­no­lo­gias que aumen­tam efi­ci­ên­cia cos­tu­mam des­lo­car recei­tas de seto­res tra­di­ci­o­nais para novas áreas da eco­no­mia.

Nos EUA, por exem­plo, o sis­tema finan­ceiro ainda opera for­te­mente apoi­ado em car­tões, trans­fe­rên­cias con­ven­ci­o­nais e estru­tu­ras pri­va­das de paga­mento. Embora exis­tam ini­ci­a­ti­vas de paga­men­tos ins­tan­tâ­neos, nenhuma alcan­çou, até o momento, o grau de uni­ver­sa­li­za­ção obser­vado no Bra­sil. Espe­ci­a­lis­tas do setor obser­vam que mode­los como o Pix pres­si­o­nam estru­tu­ras tra­di­ci­o­nais de cobrança. Isso não sig­ni­fica neces­sa­ri­a­mente opo­si­ção ins­ti­tu­ci­o­nal ao sis­tema bra­si­leiro, mas evi­den­cia a exis­tên­cia de inte­res­ses eco­nô­mi­cos afe­ta­dos pela mudança tec­no­ló­gica.

Outro aspecto fre­quen­te­mente deba­tido diz res­peito à even­tual cobrança de tari­fas sobre ope­ra­ções rea­li­za­das por pes­soas físi­cas. Até o momento, a ampla acei­ta­ção do Pix está dire­ta­mente asso­ci­ada à sim­pli­ci­dade e ao baixo custo para os usu­á­rios. Qual­quer alte­ra­ção sig­ni­fi­ca­tiva nesse equi­lí­brio pode­ria encon­trar resis­tên­cia social con­si­de­rá­vel. A expe­ri­ên­cia inter­na­ci­o­nal mos­tra que sis­te­mas finan­cei­ros bem-suce­di­dos cos­tu­mam cres­cer jus­ta­mente quando redu­zem atri­tos para os con­su­mi­do­res.

Em pou­cos anos, o Pix tor­nou-se parte inte­grante da vida eco­nô­mica naci­o­nal. Não se trata ape­nas de uma fer­ra­menta ban­cá­ria. Tor­nou-se infra­es­tru­tura básica de fun­ci­o­na­mento do comér­cio, dos ser­vi­ços e das rela­ções finan­cei­ras coti­di­a­nas. Quando isso acon­tece, difi­cil­mente uma ino­va­ção desa­pa­rece. Ela tende, ao con­trá­rio, a se expan­dir e ser­vir de modelo para outros sis­te­mas ao redor do mundo.

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