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FIDCs entram em 2026 sonhando em cair nas graças dos investidores

Ainda pouco conhecidos pelo público geral, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) tiveram forte expansão nos últimos dois anos. Mas a categoria quer mais, é claro. Com uma ajudinha do cenário econômico, o objetivo é cair nas graças de mais investidores.

Para ficarmos na mesma página antes de continuarmos: os FIDCs são fundos cujas aplicações são feitas em direitos creditórios. Ou seja, em recebíveis como duplicatas, cheques e cartões de crédito. Embora tenha sido liberado ao varejo, o principal público são investidores qualificados, com mais de R$ 1 milhão investidos ou alguma certificação para atuar no mercado financeiro.

Especialistas apostam na esperada queda da Selic para ser redefinido o papel do produto nas carteiras de investimentos. Ativos tradicionais da renda fixa, como Tesouro Selic, CDBs e fundos DI, passariam a render menos. Seria aberto espaço, então, para estruturas de retorno mais competitivo e suposta proteção e previsibilidade.

Ao mesmo tempo, com o crédito um pouco mais barato, fica mais fácil estruturar operações via FIDC, o que abre espaço para financiar mais empresas, setores e tipos de recebíveis.
 
Mas, apesar dos juros baixos favorecerem os FIDCs em relação aos demais produtos, a expansão desse tipo de investimento aconteceu justamente em um período de juros em patamares elevados. Segundo Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, a Selic alta nos últimos anos foi um dos principais motores de crescimento dos FIDCs.

“Foi em um ambiente de taxas maiores que o investidor encontrou no produto uma forma de se expor ao crédito privado com retorno elevado e, ao mesmo tempo, diluir o risco entre múltiplos recebíveis, amparado por mecanismos de proteção”, explica.

Não por acaso, diz o especialista, instituições financeiras passaram a direcionar volumes cada vez maiores de recursos para os FIDCs, tirando espaço dos títulos públicos nas carteiras dos investidores institucionais.

Do lado das empresas, os juros altos também reforçaram a relevância do FIDC como instrumento de financiamento. A antecipação de recebíveis via fundo permitiu transformar vendas a prazo em caixa imediato sem ter que recorrer a empréstimos bancários tradicionais, que costumam envolver prazos maiores e juros ainda mais elevados.

Essa flexibilidade dos FIDCs foi o que ajudou a sustentar a expansão da classe mesmo em um cenário de custo de crédito elevado, segundo Belitardo.

O consenso entre os especialistas ouvidos pelo Valor Investe é que a transição para um ambiente de juros mais baixos não enfraquece o papel dos FIDCs, pelo contrário. “O mercado não tende a estagnar; tende a ficar mais saudável”, resume Richard Ionescu, presidente da IOX.

Com eventuais cortes da Selic, os FIDCs tendem a seguir oferecendo retornos elevados e consistentes dentro da renda fixa, funcionando inclusive como instrumento de proteção da carteira, especialmente por meio das cotas sêniores e mezaninos, que não apresentam volatilidade diária e têm remuneração predefinida.

Para Samuel Garson, presidente da Associação Nacional dos Participantes em Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios, esse rearranjo pode levar a indústria a um novo patamar. Mantido o ritmo recente de crescimento, ele avalia que o mercado deve adentrar a casa do R$ 1 trilhão em patrimônio em 2026, um marco simbólico para uma classe que, por muitos anos, ficou restrita aos investidores institucionais.

O que esperar em 2026

A expectativa é de continuidade do avanço do patrimônio líquido da indústria, sustentado tanto pela própria dinâmica dos ativos pós-fixados, que seguem remunerando a carteira atrelada ao CDI, quanto pela retomada das captações.

“Acreditamos num crescimento entre 25% e 30% do patrimônio dos FIDCs. Só o crescimento dos ativos pós-fixados já gera algo próximo de 18% ao ano. Quando somamos novas captações, esse número pode chegar perto de 30%”, projeta Leandro Turaça, sócio-fundador da Ouro Preto Investimentos.

Depois de um ciclo marcado por lançamentos em série e estruturas pouco testadas, o crédito estruturado passa a ser tratado como componente permanente das carteiras, e não apenas como instrumento para capturar ganhos sobre o CDI (taxa de referência que acompanha a Selic).

Na visão dos especialistas, a tendência é de um mercado menos orientado por quantidade e mais focado em qualidade e escala.

Para Ionescu, da IOX, esse processo já está em curso. Segundo ele, a captação deve se concentrar cada vez mais em fundos com governança clara, histórico consistente e estruturas capazes de justificar o risco assumido pelo investidor. “Gestores que mostram disciplina na originação e controle efetivo da inadimplência tendem a concentrar a maior parte dos recursos”, afirma.

Esse movimento caminha junto com a mudança no comportamento do investidor. Isso porque, conforme a indústria vai ganhando maturidade, a decisão de alocação deixa de se apoiar apenas na promessa de retorno e passa a incorporar uma análise mais cuidadosa da estrutura do fundo.

É sob essa ótica que ganham peso fatores como nível de subordinação, grau de diversificação da carteira e a capacidade do gestor de atravessar momentos mais difíceis do ciclo econômico. Na prática, a cota subordinada é o “colchão de segurança” do FIDC. É ela que assume maior risco, pois sente as primeiras perdas quando algum crédito não é pago, protegendo quem está nas cotas mais conservadoras (sênior) do fundo. Em troca, oferecem retorno mais elevado.

No fim das contas, a pergunta central deixa de ser apenas “quanto rende” e passa a ser “como esse fundo se comporta quando o cenário aperta”.

Do lado da originação, com o crédito ficando mais barato aos poucos, fica mais fácil montar operações via FIDC, o que amplia os setores e os tipos de recebíveis que podem ser financiados. Em um ambiente de juros mais baixos, mais negócios passam a fazer sentido sem aumentar o risco das carteiras, favorecendo um crescimento mais equilibrado do mercado.

Entrada do pequeno investidor

Após episódios de estresse no mercado de crédito e em um ambiente prolongado de juros elevados, o investidor se tornou mais cauteloso. Segundo Belitardo, aumentou a busca por estruturas capazes de oferecer retorno consistente sem abrir mão de proteção. Para o gestor, esse movimento explica por que os FIDCs ganharam espaço dentro das carteiras.

“Isso não quer dizer que os investidores passaram a aceitar menos retorno, mas buscar estruturas mais sólidas, com menor chance de surpresas”, afirma. Fundos com baixa inadimplência, devedores mais saudáveis e excesso de garantias começaram a ser mais valorizados.

Sob essa perspectiva, Ricardo Binelli, sócio-diretor da Solis Investimentos, defende a importância de profissionais experientes e empresas diligentes no mercado. "O trabalho com crédito estruturado exige especialização para preservar a característica de refúgio e solidez dos FIDCs, não só em momentos desafiadores, mas especialmente neles", afirma.

Ele comenta ainda que, pela sua característica de crédito estruturado e proteção das cotas seniores pelas subordinadas, os FIDCs se destacam como antídoto à volatilidade dos mercados, especialmente diante da volatilidade esperada em ano eleitoral.

"As eleições de outubro devem se somar às incertezas geopolíticas globais e mexer com as expectativas do mercado, podendo resultar em oscilações mais fortes nos ativos em geral", pondera Binelli.

Para o investidor pessoa física, no entanto, o acesso direto a esse tipo de produto ainda é um desafio.

Até pouco tempo atrás, o FIDC era um investimento restrito a investidores institucionais e profissionais. Essa realidade mudou a partir de 2023, com ajustes regulatórios da CVM que permitiram o acesso da pessoa física à classe, mas a complexidade da estrutura de um FIDC ainda é uma pedra no sapato.

Para Belitardo, os FIC FIDCs, fundos que investem em uma cesta de diferentes FIDCs, são uma porta de entrada mais fácil para os pequenos investidores. Além da diversificação, a categoria defende que contribui para diluir os riscos setoriais e de emissor, sendo uma opção interessante em uma classe que ainda está se popularizando e aos poucos conquistando seu espaço no varejo.

https://valorinveste.globo.com/credito-privado/noticia/2026/01/27/fidcs-entram-em-2026-sonhando-em-cair-nas-gracas-dos-investidores.ghtml