Fomento

A Multiplike e a sua instituição financeira

Conversamos com Volnei Eyng, CEO da Multiplike, sobre o início da operação da instituição financeira do conglomerado.

Por que a Multiplike decidiu abrir uma Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI)?

Para que eu possa responder essa pergunta, eu preciso dar um passo atrás para explicar o que somos nesse momento. A Mulitplike é uma gestora de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) multicedente e multissacado, ou seja, nós fornecemos crédito para um monte de cedentes que vendem para um monte de sacados, sendo que nós já funcionamos como se fôssemos um banco, pois a cota subordinada júnior é só da Multiplike. Além da asset, nós temos a securitizadora, onde o capital subordinado é todo da Multiplike. Em termos de mercado, a Multiplike é a maior securitizadora multicedente e multissacado e o segundo maior FIDC multicedente e multissacado.

Nós abrimos uma SCFI, pois ela nos torna mais competitivos, já que verticalizamos a operação em termos tributários, diminuímos custos de serviços bancários e passamos a ter o nosso próprio número bancário, o que melhora a experiência do cliente.

Como o crédito passou a ser uma commodity nos últimos anos, com uma análise mais simples por causa do incremento de tecnologia, mas com spreads baixando, nós sentimos a necessidade de verticalizarmos a operação, deixando de usar o serviço de um banco e pulverizando as origens do nosso passivo. Isso porque, além da Multiplike captar dinheiro no mercado privado através da securitizadora e dos FIDCs, agora nós também temos uma instituição financeira, o que diminui o nosso custo de funding. 

Por que as demais gestoras de FIDCs não fizeram esse movimento?

Como o Brasil vive um momento de desbancarização, nós queremos ser a empresa que desbancariza o crédito corporativo. A Multiplike foi a primeira desse mercado a fazer esse movimento, mas esse é um caminho natural que será percorrido pelos grandes FIDCs multicedente e multissacado ao longo dos próximos anos, já que isso permite a pulverização do passivo.

Como a Multiplike pretende posicionar a sua SCFI no mercado?

Nós seremos um conglomerado econômico que possui uma instituição financeira, e não uma instituição financeira que tem um conglomerado econômico. A SCFI será mais um braço, mais uma gaveta dentro da Multiplike para verticalizar a operação e melhorar o atendimento do cliente em relação ao preço. Como não vamos mudar o que fazemos, crédito corporativo para médias e grandes empresas, não é porque temos uma instituição financeira que vamos fazer consignado ou financiamento de automóveis.

Aproveitando a oportunidade, qual a sua avaliação dos impactos da Reforma Tributária no mercado da Multiplike?

Uma instituição financeira paga mais impostos que uma securitizadora e uma asset, mas o nosso investidor, dependendo da modalidade de investimento, não. Como o Brasil sempre teve investimentos incentivados, e vai continuar tendo, nós preparamos uma gaveta a mais para isso. Nós não fizemos esse movimento pensando em fazer com que a Multiplike pagasse menos impostos, mas sim no investidor da instituição financeira. Neste momento, LCIs e LCAs pagam menos impostos, mas se amanhã não forem esses investimentos, serão outros que terão uma isenção maior de impostos.

Como está o mercado de crédito?

Apesar do número recorde de recuperações judiciais (RJ), é fato que a inadimplência de pessoas jurídicas não disparou, pelo contrário. Olhando para a indústria de FIDC multicedente e multi-sacado, a sua inadimplência está muito menor do que há um ano. Isso porque, como a Selic está alta, a indústria está extremamente cautelosa.

A inadimplência tem acontecido nos microempresários, pequenos empresários e nos agricultores, que aprenderam a pedir RJ. Isso porque, por mais que a RJ tenha começado em 2005, a legislação somente permitiu esse recurso aos agricultores a partir de 2022.

Além disso, esse excesso de recuperações judiciais no agronegócio está acontecendo porque quando uma pessoa faz esse tipo de pedido, ela não pede no seu CPF, mas sim no seu grupo familiar, que, normalmente, envolve a esposa e os filhos. Essa é uma das razões pela qual o Banco do Brasil, que é muito exposto ao agro, é o único banco, atualmente, com algum problema de inadimplência. Independente disso, não existe um receio de aumento de inadimplência de pessoas jurídicas.

Com relação às pessoas físicas, as famílias brasileiras estão mais endividadas, mas o desemprego está pequeno. Mesmo com uma Selic em alta, quando se tem um crescimento do PIB com desemprego baixo, a população continua pagando, e as empresas continuam recebendo. Isso é diferente de um cenário com uma Selic alta e desemprego alto.

Nos últimos quatro trimestres, nós tivemos um crescimento do PIB de 3,2%. Por mais que as perspectivas sejam de uma desaceleração desse crescimento por causa da política monetária do Banco Central, ele deve passar para 1,7%, 1,8%, o que não se pode comparar a 2015 e 2016, quando tivemos dois anos de recessão e a última grande explosão de inadimplência. Essas são duas situações diferentes.

Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto a sua entrevista?

Como o mercado se sofisticou muito, a Multiplike entende que com uma operação híbrida, que opere no mercado privado de capitais e como instituição financeira, ela vai conseguir sempre ter uma opção, tanto para os seus investidores quanto para os tomadores de crédito, que são os clientes da Multiplike. Essa é a ideia.

https://monitormercantil.com.br/a-multiplike-e-a-sua-instituicao-financeira/