Economia

Tarifaço: setores querem crédito rápido e salário menor para reter emprego

As medidas anunciadas pelo governo para ajudar empresas afetadas pelo tarifaço de Donald Trump são positivas, na avaliação de diversas entidades patronais, mas podem ser insuficientes para manter empregos em alguns setores — o que é a principal contrapartida exigida das empresas que quiserem receber esses benefícios, que incluem empréstimos a juros subsidiados.

Redução de jornada e salários

Empresas não vão conseguir manter empregos só com acesso a crédito, diz setor de calçados. "A empresa que deixa de atender seu principal mercado internacional, os Estados Unidos, não vai conseguir manter empregos com mais dívidas a pagar, mesmo que os juros praticados sejam abaixo dos juros de mercado", disse em nota Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados).

Medidas anunciadas ajudam, mas não resolvem o problema, avalia entidade. Segundo a nota divulgada pela Abicalçados, "se o setor não conseguir manter suas exportações, ficará até mesmo difícil cumprir os compromissos estabelecidos pelos empréstimos".

Setor quer aval para suspender contratos e auxílio do governo para complementar salários. Dentre as demandas da entidade estão a suspensão de contratos de trabalho por até 90 dias e mecanismos para a redução de jornada e salário de funcionários. A associação pede que o governo pague um auxílio aos empregados como compensação pelas reduções sofridas. Propõe ainda adiar o recolhimento do FGTS.

As medidas pleiteadas são semelhantes às oferecidas às empresas na pandemia da Covid-19. As propostas foram apresentadas ao vice-presidente Geraldo Alckmin e, segundo a Abicalçados, estão em análise no Ministério do Trabalho e Emprego.

Setor de couro tem posicionamento semelhante. Em nota, a Assintecal (Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos) disse que as linhas de crédito anunciadas "trazem alívio imediato", mas que é necessário "um pacote mais amplo que garanta a manutenção dos postos de trabalho e a estabilidade da cadeia produtiva". A associação não especifica quais medidas defende para esse pacote.

Agilidade no crédito

Iniciativas do governo atendem às demandas do setor de pescados. Já na avaliação da Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescados), as medidas anunciadas no Plano Brasil Soberano atendem às expectativas e são suficientes para manter os empregos no setor.

Mas, para manter postos de trabalho, o crédito precisa chegar logo. "Se o governo conseguir dar celeridade na viabilidade do crédito junto aos bancos repassadores, o setor de pescados consegue salvaguardar empregos. Se entrar num ritmo burocrático, vamos perder muitos postos", diz Eduardo Lobo, presidente da entidade.

Setor consegue esperar o crédito até a primeira quinzena de setembro. A expectativa é que as empresas possam começar a procurar os bancos por volta do dia 4 de setembro.

Enquanto aguarda, setor se endivida com juros altos e vende abaixo do preço. As empresas do setor de pescados estão se endividando com juros mais altos e vendendo para o mercado asiático "por preços inexequíveis" para conseguir pelo menos manter os salários em dia.

A expectativa é que, com os empréstimos, o setor possa adaptar sua produção para atender melhor à Ásia. "Estamos vendendo para China, Cingapura e Taiwan a preços que não fazem sentido. Mas, em médio e longo prazo, com adequação de corte e embalagem, podemos conseguir uma adaptação a esses mercados", diz Lobo.

A Abipesca aguarda ainda uma atuação mais firme do governo para abrir o mercado europeu. A demanda do setor é antiga e, segundo a entidade, a parte técnica já foi resolvida. A demanda agora é para que o presidente Lula se engaje no tema junto aos líderes europeus.

Entidades de outros setores ainda avaliam as medidas anunciadas pelo governo. A Abrafrutas informou que vai monitorar se os produtores estão se cadastrando para receber o crédito facilitado. A Abiquim (indústria química) disse que as medidas anunciadas estão em análise pela área de economia da associação. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) também está avaliando as medidas.

Socialização de perdas

Setores específicos podem sofrer, mas o efeito geral no nível de emprego deve ser pequeno, diz pesquisador. É importante ter a perspectiva de que, ainda que o tarifaço tenha efeitos expressivos em alguns setores, "os efeitos macroeconômicos não são relevantes", afirma Lívio Ribeiro, pesquisador associado do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), ligado à FGV (Fundação Getúlio Vargas), e sócio da BRCG Consultoria.

É preciso ter cautela na hora de socializar perdas de setores específicos, diz Ribeiro. Segundo o pesquisador, esse tipo de discussão precisa de uma avaliação objetiva, que vá além dos lobbies setoriais e da influência política, sob o risco de onerar a sociedade sem uma contrapartida significativa.

"Tem setores que serão muito afetados, mas temos que pensar no impacto para a sociedade. Não necessariamente salvar um setor é socialmente bom. O custo pode ser maior do que o benefício. O grande perigo é querer socializar as perdas de um setor, que é a história do capitalismo brasileiro. Somos muito bons em socializar perdas."
Lívio Ribeiro, pesquisador do FGV Ibre

Adesão a crédito do governo dependerá do perfil financeiro de cada empresa. Parte relevante da ajuda proposta pelo governo está baseada na concessão de empréstimos com juros mais baixos. "A empresa vai precisar pagar essa dívida, e para isso tem que fazer caixa. Isso vai depender da sua situação financeira e da sua programação no longo prazo", diz Alexandre Pires, professor de Economia do Ibmec-SP.

Empresário pode considerar menos arriscado fazer cortes. Outro ponto a ser considerado é a avaliação que o empresário faz das perspectivas para o tarifaço. "Num ambiente de incerteza, muitas empresas vão preferir fazer ajustes, cortar na própria carne, interromper investimentos, em vez de buscar o empréstimo do governo", diz Pires.

Medidas anunciadas

O governo federal vai conceder linhas de crédito mais baratas a empresas cujas exportações foram tarifadas em 50% pelos Estados Unidos. Batizado de Plano Brasil Soberano, o crédito vai atender às empresas que tiverem uma queda de faturamento bruto superior a 5% em comparação a 12 meses antes. O governo também abriu uma linha de crédito de R$ 10 bilhões a empresas tarifadas em menos de 50%.

Ajuda só será dada a empresas que mantiverem seus funcionários. O governo vai monitorar a permanência e demissão de funcionários nas empresas beneficiadas. A base de comparação será a média de empregos entre julho de 2024 e junho de 2025.

Empresa que não cumprir o requisito será penalizada. Caso seja constatada a redução no número de empregos, os juros dos empréstimos tomados passarão a ser calculados com base na taxa Selic, que atualmente está em 15%. Para saber se a empresa manteve os empregos, o que vai valer é a média de empregados entre o 5º e o 16º mês após a contratação do empréstimo.

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2025/08/26/empregos-tarifaco.htm