Terça, 01 de Dezembro de 2020

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Bancos reestruturam ativos para melhorar valor e competição

19/11/2020 - Economia

Os três maiores bancos privados brasileiros estão neste momento debruçados sobre processos de reestruturação, e não há coincidência nenhuma nisso. Com lucros em queda e desempenho das ações fraco desde o início da pandemia, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander buscam formas não apenas de destravar o valor de alguns ativos, mas também de gerar mais eficiência.

O passo mais recente foi dado pelo Santander. O banco anunciou nesta semana que estuda separar a credenciadora de cartões Getnet numa empresa à parte, que deverá ter ações listadas na B3 e ADRs nos Estados Unidos.

É um desenho parecido com que o Itaú pretende dar à sua participação na XP Investimentos - segregar essas ações em uma nova empresa, que será cindida e terá o capital aberto.

Nos dois casos, os acionistas dos bancos receberão proporcionalmente ações dessas novas companhias e a expectativa é que se beneficiem de múltiplos melhores que os proporcionados hoje pelos papéis das instituições financeiras. A diferença é que a XP já tem um preço identificável, pois é negociada em bolsa, enquanto os analistas ainda discutem qual o valor justo para a Getnet - os cálculos abrangem uma faixa tão ampla que vai de R$ 5 bilhões a R$ 20 bilhões.

O Bradesco também fez, em setembro, o desmembramento do banco digital Next e estuda adotar o mesmo caminho na plataforma de investimentos Ágora, que reúne as operações de corretagem da instituição financeira para clientes pessoa física.

Em comum a todas essas situações, está uma tentativa dos bancos de capturar o “valor oculto” desses ativos, que consideram subestimados no preço de suas ações. Além disso, os papéis do setor estão pressionados neste ano pelos impactos da pandemia e pela limitação ao pagamento de dividendos imposta pelo Banco Central (BC). “O mercado não considera a soma das partes”, diz um executivo de uma grande instituição financeira. “Os bancos têm ativos valiosos para os quais os analistas atribuem valor zero enquanto estão ali dentro.”

Essa é a principal explicação, mas não a única. As instituições financeiras também estão à procura de maior agilidade na gestão diante da chegada de novos competidores digitais. Uma das razões citadas pelo Bradesco para separar o Next foi dar ao banco digital, que tem cerca de 3,2 milhões de contas ativas, mais autonomia e agilidade para competir com as fintechs. O Itaú apontou a separação da XP como uma retirada de amarras para reforçar a competição no mercado de investimentos pessoais. “Há menos risco de ter conflito de interesses”, afirmou o presidente do banco, Candido Bracher, a analistas no início deste mês.

O desmembramento da Getnet, por sua vez, vai em linha com os planos do Santander Espanha de criar um provedor global de serviços de pagamentos - para isso, o banco europeu também anunciou a compra de ativos da Wirecard. Sem estar debaixo da unidade brasileira, a Getnet poderá perseguir “avenidas adicionais de crescimento”, na visão de analistas do Credit Suisse.

“Um modelo apartado facilita que essas operações tenham identidade própria”, afirma Eduardo Nishio, analista-chefe da Genial Investimentos.

Esses movimentos ocorrem ao mesmo tempo em que os bancos buscam respostas para o desafio tecnológico que têm diante de si. As estratégias variam e ainda não está claro qual será o modelo vencedor. Por enquanto, o que se vê são tentativas de criar novos negócios que, lá na frente, ajudem a atrair clientes e abrir novos flancos de rentabilidade para suprir a perda de valor nas operações tradicionais. É o que se vê em apostas como o próprio Next e a recém-lançada carteira digital Bitz, do Bradesco, a plataforma de investimentos Pi, do Santander, e o iti, do Itaú, que chegou ao mercado em 2019 e está agora sendo reformulado.

“A grande oportunidade estratégica é que a gente possa criar outras empresas dentro da corporação que sejam robustas, com gestão individual”, disse o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Jr., em evento com investidores na semana passada. De acordo com o executivo, o banco pode discutir a possibilidade de atrair sócios ou fazer o IPO dessas operações num segundo momento.

“As novas gerações não têm conta em bancão ou têm porque o pai tem. Tem que ter algo que capture esses clientes antes que os outros o façam”, ressalta Nishio. “Se for para perder, que seja para mim mesmo.”

Questões como essas já estavam postas antes de se falar em coronavírus, mas as mudanças de hábito provocadas pela pandemia têm levado os bancos a acelerar essa discussão. No terceiro trimestre, o Bradesco anunciou amplo processo para reestruturar sua rede de agências, que implicará, neste ano, o fechamento de 400 delas e a conversão de outras 700 em unidades de negócios, com uma estrutura de custos até 40% mais barata.

O Banco do Brasil (BB) também já passou a adotar um modelo que combina agências maiores e mais centrais com unidades menores no entorno, voltadas mais para negócios e menos para transações.

Diversas pesquisas têm mostrado forte redução na frequência de uso das agências neste ano - a mais recente delas, divulgada ontem pela Mastercard, aponta que o uso dessa forma de atendimento caiu 63% na pandemia. Números como esse dão argumento à colocação em prática dos planos das instituições financeiras para enxugar esse canal.

A expectativa no mercado é que o Itaú também acelere medidas de corte de custos no próximo ano, depois que Milton Maluhy Filho tiver assumido a presidência do banco e os cargos de direção estiverem recompostos.

Aos novos desafios tecnológicos e de competição, soma-se o fato de que os bancos têm de lidar com taxas de juros no nível mais baixo da história e o alto volume de provisões resultante da crise, fatores que contribuem para pressionar os resultados. “Com os juros caindo e sem muito apetite para crescer em volume, eles vão ter de cortar custos”, diz Nishio. (Colaborou Álvaro Campos)

https://www.sinfacsp.com.br/noticia/bancos-reestruturam-ativos-para-melhorar-valor-e-competicao-valor-economico

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