Domingo, 19 de Janeiro de 2020

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“Não adianta votar a reforma tributária no primeiro semestre de 2020 e travar a economia”

09/01/2020 - Economia

O BTG Pactual trabalha com a crença de que a economia brasileira começa a mostrar sinais de crescimento. Em recente relatório, comenta que 2020 será um grande ano para o Brasil com “uma perspectiva mais brilhante de crescimento”. O banco também elevou a previsão do PIB para 2,5%.

Para Álvaro Frasson, economista do BTG Pactual digital, que tem ampla experiência na análise da macroeconomia e do mercado de capitais brasileiro, é nas mãos do Congresso que está o futuro do Brasil, com a escolha de pautas cruciais para alavancar a economia. Em entrevista à DINHEIRO, Frasson aponta quais devem ser as prioridades em 2020.

Em 2019, o Governo realizou uma série 0]de medidas para diminuir os custos da máquina federal, entre eles a reforma da Previdência e corte de gastos no funcionalismo. Em 2020 sentiremos os efeitos deste enxugamento?

Em 2020 teremos dois cenários. O positivo é que o governo continuará reduzindo os gastos na máquina pública. Por este motivo, a saída nos próximos dois anos para o Brasil será o crédito privado, com o governo Bolsonaro incentivando o mercado a ofertar crédito para projetos diversos.

O lado negativo está na reforma Tributária, que tem poucas chances de ser aprovada em 2020. A pauta da tributação passa por duas situações: se a reforma for aprovada no começo de 2020, terá que encarar um cenário tenso, com implicações setoriais que pode travar a agenda de reformas do primeiro semestre. Porém, se for votada em 2021, pode ser ruim para os setores que dependem da tributação, afetando investidores, capital fixo, serviços, alíquota industrial, gerando uma insegurança tributária no Brasil.

Mesmo com duas alternativas pouco otimistas, as eleições municipais no segundo semestre de 2020, que devem pausar as votações do congresso, indicam que a reforma deve ficar para 2021. Deixando para primeiro semestre de 2020 pautas mais simples e urgentes: a PEC emergencial, a reforma administrativa, e o funcionalismo público.

A agenda política será crucial para o bom andamento da economia em 2020. O Congresso deve se preocupar com a ordem de votação das reformas. Não adianta votar a reforma tributária no primeiro semestre de 2020 e travar a economia.

Como ficam os indicadores econômicos e investimentos com este panorama?

Acredito que 2020 não será um ano de investimentos de longa data, o consumo de bens e serviços, o varejo, continuará ganhando força e estimulando o crescimento econômico. A economia vai crescer, mas ainda enfrentaremos uma grande austeridade.

As estimativas do BTG para a taxa Selic são de 4% até o final de 2020, e a inflação IPCA de 3,5%.  O juro e inflação baixos devem incentivar o consumo, há pouco espaço para a retomada da indústria.

A projeção é que o PIB cresça 2,5%. Analisando os quatro componentes que fazem parte do PIB, consumo das famílias, gasto público, investimentos fixos e balança comercial, temos o seguinte cenário: o gasto público não deve estimular o crescimento em 2020, o investimento será relevante por causa dos juros baixos. Já a balança comercial fica em um terreno duvidoso por causa do acordo entre China e Estados Unidos que pode alavancar nossas exportações ou prejudicar. Então a responsabilidade sobra para o consumo privado. A liberação do FGTS e um reajuste do salário mínimo podem ajudar no aumento do consumo e provavelmente na geração de empregos, de até 2,5% no próximo ano.

E o câmbio?

O câmbio terá um cenário muito estressante. Será impactado com a nota de crédito brasileira, a percepção do risco Brasil e o acordo comercial China-EUA.

O real deve ganhar força em 2020, com melhorias no ranking da S&P Global, a nota do Brasil pode deixar a classificação “BB-“. Isso abriria as portas para o investimento estrangeiro.

A cotação do dólar deve cair de R$4,20 para R$4,05, encerrando 2020 ao redor de R$ 4,10.

A infraestrutura brasileira ganha investimentos em 2020?

Vejo uma fase boa para o mercado de investimento privado no Brasil, que pode ser até mais importante que o crédito público.  Os resultados serão melhores do que em 2019, por causa das reformas, que vão melhorar a percepção do Brasil lá fora e atrair fluxo estrangeiro.

Em relação ao BNDES, acredito que as empresas já perceberam que o banco adotou novas posturas de crédito, com desinvestimentos nas grandes corporações e auxiliando pequenas e médias empresas. Vemos uma saída saudável no crédito privado em 2020.

Veremos mais empresas abrindo capital na Bolsa de Valores?

É difícil fazer uma comparação com 2019, mas o que é possível afirmar é que o índice é favorável para o mercado secundário. Se a nota de crédito do Brasil melhorar, então teremos um crescimento interessante comparado aos últimos cinco anos.

De 30 bilhões de reais na economia brasileira, mais de R$ 10 bi foram para o mercado secundário da B3.  Tudo isso, somado a uma percepção correta da agenda de reformas, deve fortalecer o fluxo estrangeiro.

Com o juro baixo, os investidores de renda fixa continuarão migrando para renda variável?

Sim, e isso acontece não só por causa da taxa Selic e sim também pelo crescimento econômico. Vemos um fenômeno onde as pessoas começam a migrar para renda variável, entendem mais de fintechs e educação financeira. Há dois anos eram 500 mil investidores na bolsa e hoje temos 1,5 milhão.  Os bancos digitais e os movimentos de educação financeira facilitaram este acesso.

Tem um segundo fator que é a valorização da renda variável. Com os juros que devem permanecer estáveis em 2020 e as empresas gerando fluxo de caixa, o Ibovespa vai continuar subindo com a economia brasileira ganhando tração.  Até o final de 2020, o BTG espera que o Ibovespa chegue a 130 mil pontos.

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